Sentada ao chão de seu pequeno banheiro, com seu ombro esquerdo encostados junto aos ladrilhos amarelos que formavam uma imagem antiguada do cômodo e com suas costas apoiadas no blindex, utilizava o final de seu roupão, que ali naquela parede encontrava-se pendurado, para abafar seus grunhidos. Pensava apenas que não teria forças para continuar, depois de tanto tempo mentindo para si mesma, não sabia se teria coragem de, por fim, remover a faixa de seus olhos que a cegava, levantar sua cabeça e seguir em frente. Sentia uma confusão de sentimentos, um vazio profundo e uma tristeza tão forte que a levou a pensar em uma solução rápida e eficaz que acabaria por fim com aquela inquietude, com aquela dor que corrompia cada fibra de seus músculos, percorria todo seu sistema nervoso em segundos e que conseguia transformá-la em mediocridade mesclado a um estado "abissal" que jamais poderia ser visualizado em um ser humano. Pegou a tira que envolvia seu roupão, dobrou-a em sua metade, posicionou-a em seu pescoço passando as pontas, agora unidas por um nó, entre a alça que agora havia ser formado, puxando com força. Aos poucos era como se sentisse todo o sangue de seu corpo concentrado em sua cabeça, suas veias pulsavam como se fossem explodir, seus lábios adquiriram uma coloração arroxeada, começou a sentir falta de ar, formigamento, sua garganta se irritava como se implorasse por socorro, até certo ponto que suas forças foram exauridas, seu braço não aguentava mais puxar, ela então o substituiu por um de seus pés, no entanto a alça estava curta de mais levando a falência de seu plano. Ela só podia chorar mais e mais, até nisso havia falhado e detestava falhar, ela enfrentava uma decepção interior, onde até então acreditava ter agido certo em tudo o que fazia, mas só agora conseguia visualizar o fato que tudo era uma simples fachada, havia se decepcionado consigo mesma, havia machucado muitos e não sabia se seria capaz de conviver em paz com seu passado.
Enquanto tudo isso acontecia Bruna sabia que alguém a observava. Conforme estava sentada ali, no chão frio, sentia o roçar de seus pêlos, suas patas apoiadas em seu joelho direito enquanto ela encarava Bruna como se a perguntasse o que estava fazendo. Seu nome era Sofia e ela já fazia companhia a Bruna pelos últimos 7 meses.
Bruna sempre foi o tipo de pessoa que almejava independência, tinha seu plano traçado. Entraria em uma faculdade pública de renome, buscaria por uma graduação que não fosse insignificante e que ao mesmo tempo fosse concorrida, tudo para provar para sua família que ela era capaz de ter uma vida brilhante sem ter nascido em "berço de ouro", como era o caso de sua prima. Pelo fato de não possuir irmãos sempre foi comparada aos seus primos, Daniel e Emma. Daniel sempre foi um menino introvertido, que causava afronta a família por não estar nem um pouco interessado em estudar, seu sonho era voar, ser um piloto comercial. Seu pai o abandonou ainda quando bebê e toda a carga de sua educação ficou nos ombros de sua mãe, Clara. Conforme o tempo passou, já na adolescência de Daniel, Clara achou o conforto que precisava nos braços de um renomado cirurgião, com sua carreira ainda em ascensão e que com carinho e generosidade legitimou Daniel como um de seus próprios filhos e se prontificou a apoia-lo como um pai.
Emma sempre viveu rodeada pela fortuna de seu pai, vinte e sete anos mais velho que sua mãe, adquirida pelos seus serviços prestados no mais alto cargo do poderio aeronáutico brasileiro. Emma jamais deu valor a qualquer coisa senão ela mesma. Por mais que ela tivesse toda a infra-estrutura necessária para ser o melhor que pudesse ser, ela decidiu por bem não ser nada e apenas desfrutar dos bens financeiros de sua família, que, como ela mesmo costumava falar, eventualmente seriam dela.
Os planos de Bruna jamais envolveram achar um príncipe encantado, ou ter o casamento perfeito, com filhos e churrascos aos domingos. Depois que ela atingisse seu primeiro objetivo, a faculdade, entraria em um emprego, para evitar sugar ainda mais sua mãe, do que já sugava. Após sua formatura, teria cinco anos para conseguir seu carro e imóvel próprio além de um emprego estável na área pública que a pagasse o suficiente para viver confortavelmente. O que Bruna não pensou é se seria forte o suficiente para encarar uma vida inteira sozinha.
Sofia surgiu como um dos maiores presentes na vida de Bruna. Sofia é uma gata, sem raça definida que ia ser dada a qualquer pessoa que a quisesse em uma feira. Nasceu em uma ninhada com um total de quatro filhotes, dois machos de olhos azuis com a pelagem semelhante a de um gato siamês e duas fêmeas com a pelagem preta rajada de caramelo e branco. Os dois machos rapidamente conseguiram donos, entretanto as duas fêmeas, por não serem tão atrativas em seu exterior, ou como todos falavam, "nossa, que filhotes feios!", não conseguiram. Até que um dia Bruna recebeu uma ligação perguntando se queria um filhote, com um mês apenas. Comovida com a história e querendo preencher o vazio que sentia quando estava em casa sozinha, aceitou. Escolheu Sofia porque era, das duas, a que já conseguia se alimentar sozinha. Para ela, Sofia era a gata mais linda do mundo. Mesmo que arteira, brincando de pular de sofá em sofá, mordendo e arranhando, Sofia sempre estava pronta para dormir ao lado de Bruna quando ela a chamava, sempre se fazia presente quando sua dona estava passando mal e só tinha ela, ou até mesmo quando estava prestes a fazer a maior besteira de sua vida. A história de amor das duas começa ai.
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